3 de outubro de 2011

No Entanto - Caso de Londres: política maquiada com história de conto de fadas

 

 

O que a morte do jovem Mark Duggan, morador da periferia de Londres, e o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono da Áustria, tinham em comum? Ambas foram estopim de guerra, o motivo que faltava para um conflito anunciado de fato acontecer.

 

Mark Duggan recebeu muitas definições dos jornais britânicos: um pai de família, um criminoso, um cidadão querido em sua comunidade, um homem negro. As causas de sua morte durante uma blitz, entretanto, permanecem como um ponto de interrogação que a Scotland Yard, Polícia Metropolitana de Londres, deixou no mar das exclamações, fumaça e vandalismo que agitaram Londres durante a primeira semana de agosto.

 

"A base da pirâmide demográfica é dominada por jovens, entre os 16 e os 25 anos, e a maioria em situação de desemprego e sem qualificações, logo a propensão para haver problemas é muito grande", avalia José Vegar, investigador e professor universitário, em entrevista ao periódico português Jornal de Notícias. É obvio que o vandalismo que tomou conta das ruas de Tottenham, bairro onde Duggan morreu, não teve as mesmas proporções da Primeira Guerra, mas trouxe à tona questões que o governo britânico prefere não discutir, como os cortes dos planos de assistência à população e o alto índice de desemprego que assola o país desde a crise econômica de 2010.

 

As manchetes sobre a economia da Grã-Bretanha não são positivas e as informações da Dow Jones, publicadas no G1 em 18 de agosto, dão conta que "o poder de compra do consumidor do Reino Unido está sendo pressionado por uma combinação de inflação alta e salários estagnados, enquanto o fraco mercado de trabalho e os altos níveis de dívida pessoal prejudicam a confiança do consumidor." Num cenário econômico difícil, uma política maquiada com a história de contos de fada, na qual a plebéia e o príncipe vivem felizes para sempre, o assassinato de Mark Duggan foi a pequena faísca que faltava para acender a pólvora espalhada pelas ruas de Londres.

 

A proposta desta coluna é analisar publicações sobre um tema definido em sala de aula e levantar um debate sobre ele. Pois bem, li diversas matérias sobre os conflitos que ocorreram após o assassinato de Duggan numa operação policial. Tomei por base o post da Revista Época e outro da Revista Exame, publicados no dia nove de agosto, três dias após as primeiras manifestações. Se por um lado o Primeiro Ministro Britânico, David Cameron, classifica a onda de violência que começou numa manifestação inicialmente pacífica e se espalhou por pontos de Londres e de outras cidades como "delinquência pura e simples", além de "oportunista" , por outro lado, o contexto social de Duggan traz outras explicações para a revolta da população.

 

A matéria da Época frisa que o Primeiro Ministro reagiu com veemência contra as manifestações, triplicando o número de policiais nas ruas e com a prisão de 450 pessoas envolvidas nos conflitos. A violência deve ser contida, afinal, violência não traz avanços. No entanto, é imprescindível à Cameron avaliar também as raízes por trás destes problemas e combatê-los no âmbito social.

 
 
Texto publicado na 54ª Edição do Jornal No Entanto, do curso de Comunicação Social da UFES.


Daniely Borges

@daniielyborges

 

"Livrai-nos de todo mal. Amém"

28 de junho de 2011

A companhia mais legal da Cidade


Eu, eu mesma e Dany. Isso não é papo de auto-ajuda, não. É só uma conversa informal sobre solidão. É verdade que nem sempre estar sozinha é legal. Justiça seja feita, quem sabe mais dos seus podres do que àquele que te olha no espelho? Mais do que melhor amiga, aquela pessoa conhece seus pensamentos, e sim, julga todos eles e às vezes até te aconselha. Aquela imagem sabe da sua história, daquele errinho, daquele segredo.

Uma vez participei de uma dinâmica de grupo (na maioria das vezes não gosto deste tipo de coisa, mas dessa eu gostei), e a brincadeira era escrever num papelzinho CINCO qualidades que você mais gostava em si mesma e cinco qualidades de quem estava ao seu lado. Fiquei horrorizada com a dificuldade que as pessoas tiveram de se assumirem, mesmo que positivamente, porque na verdade quase ninguém se conhece. A maioria tem medo de sua própria companhia.

Eu estava adorando listar minhas qualidades, mas minha amiga L. não tinha passado da primeira, eu dei uma “colinha” para ela e disse coisas que eu admirava nela. Sei que não devia ter feito isso. O exercício de se olhar no espelho e “ver” realmente é muito difícil, mas é trabalho individual. Eu demorei um tempo a entender isso, e confesso ainda não sei o bastante de mim, mas já sou uma das melhores amigas que tenho. Nem sempre estou de bem, às vezes discuto, reclamo, me chateio, aí rola uma D. R. e tudo volta à tal normalidade.

Um novo tipo de família surgiu na sociedade: o EU. E esse “eu” trabalha, estuda, namora, tem uma vida, mas não dispensa a própria companhia nos fins de semana, isso tudo sem dor, sem neuras, sem paranóias, pelo menos não tantas. Muitos do que vivem sós o fazem por opção, e gostam de ocupar o sofá todinho e não dividir o controle da TV com ninguém. Isso não é egoísmo, é amor. Se amar é bom, é bom dançar sozinha, cantar e rir da própria cara de vez em quando.

Enfim, bons momentos são feitos de pessoas, mas não precisa ser um monte de pessoas, pode ser só você. A melhor e pior pessoa que passará pela sua história não é aquele amante, aquele mestre, a sua mãe, ou aquele amigo querido, todos eles são importantes, claro; mas você é quem fará a diferença na passagem deles pela sua vida. Pois é, estar sozinha com meus botões me obriga a me aceitar, a entender minha solidão, a gostar de mim e até a escrever. Isso não é ruim.